Star Wars. The Last Jedi. Legado e fracassos.
janeiro 12, 2018![]() |
| i got a |
Vamos direitos ao assunto: The Last Jedi. Acontece que provavelmente se trata do filme mais controverso da franquia desde que O Império Contra Ataca estreou em 1980 e quem seria eu se não me juntasse ao coro de vozes que falam sobre este filme?
Depois de ter visto o filme duas vezes, passei algum tempo a tentar perceber a discussão que rodeava The Last Jedi. Para dizer a verdade... Ainda não percebi. Parece-me que o maior problema que alguns têm em relação ao filme é o facto de ser tão distinto. Há dois anos atrás, o problema era exatamente o contrário. O que levanta a questão: será que não existe um meio termo?
A magnitude do legado de Star Wars é inegável. E todos os filmes - que não a trilogia original - carregam esse fardo. Espera-se que sejam tão bons como os seus antecessores, mas, ao mesmo tempo, que tenham a sua própria identidade. É como puxar um elástico em duas direções diferentes: cria tensão.
Na minha opinião, ambas as sequelas encontraram maneiras diferentes e eficazes de responder ao mesmo dilema. The Force Awakens marcou o regresso da franquia às salas de cinema e escolheu fazê-lo relembrando-nos o porquê de nos termos apaixonado pela primeira trilogia. É uma homenagem que foi considerada erroneamente uma cópia. Houve um desentendimento entre o que se pretendia e o que se depreendeu. Mas, no geral, foi bem aceite. É seguro dizer que eu adorei o que vivi - o seu poster vive numa moldura no meu quarto.
A partir deste ponto haverá spoilers. Considerem-se avisados.
A forma como The Last Jedi responde ao dilema é uma das razões pela qual o considero genial. O legado é não só aceite, como transformado num dos temas centrais. Rey procura o seu passado, convencida de que este lhe irá conferir um lugar nesta história. Kylo Ren/Ben Solo carrega consigo o fardo de um legado com uma magnitude inegável - onde é que eu já disse isto? Luke Skywalker contesta o estatuto mitológico do legado que herdou e se recusa a perpetuar.
E embora o conceito seja por si só interessante, a resolução destas narrativas melhora tudo. Rey percebe que o seu valor não reside na sua história e em ninguém sem ser ela mesma. Luke Skywalker aceita o seu legado e percebe que este engloba os seus sucessos e os seus fracassos. Kylo Ren... é complicado.
Ben Solo passou toda a sua vida na sombra do legado dos Skywalker e esperava-se que ele fosse melhor do que aquilo que o antecedeu. A sua história está aparentemente definida. E imaginem o quão vulnerável é um miúdo que não tem espaço para descobrir quem é e decidir quem vai ser. E para além disso... imaginem o quão curioso. Parte da história dos Skywalker passa pelo lado negro da Força. É perfeitamente natural que o jovem Ben Solo estivesse curioso sobre esse capítulo. Especialmente, por lhe ser proibido. Este miúdo vulnerável e curioso é de repente e sem aviso traído por alguém em quem confiava. É óbvio que o resultado seria algo como Kylo Ren.
Mas Kylo Ren continua a ser um rapaz a tentar sair da sombra que o persegue. Todas as ações que leva a cabo têm esse propósito, seja usar uma máscara ou matar o seu pai - uma representação física de que carrega também um legado menos prestigiado que o dos Skywalker, ou seja, uma fraqueza. E embora apregoe a ideia de deixar o passado morrer, é o único que não o consegue fazer.
Em The Last Jedi, Kylo Ren, estabelece-se como um dos vilões mais interessantes dos últimos anos. Talvez tão bom como Darth Vader, o que é dizer muito. E isso deve-se em parte, ao facto de não ser um vilão de todo. Porque no final de contas Kylo é o resultado das expectativas elevadas que depositam nele. Ele é um elástico a ser puxado em duas direções distintas.
E, do outro lado, Rey. Alguém sem legado a satisfazer e, aparentemente, sem lugar nesta história que assume o papel de heroína. Muitos são os que consideram Rey menos capaz enquanto heroína do que Luke era quando o conhecemos. Procurei muito por um argumento válido sobre esta questão e ainda estou à procura. Por isso, a essas pessoas pergunto... Qual é o vosso problema? É o género da heroína? É o facto de não ser filha do Luke ou da Leia? Rey é a heroína que esta narrativa precisava e é tão capaz como Luke era quando o conhecemos. Se não mais.
A verdade é que o destaque dado a personagens femininas, foi também um motivo de controvérsia. Algo que para mim é absurdo. É absurdo dizer que a narrativa da Vice-Admiral Holdo deveria pertencer a uma personagem mais familiar como o Admiral Ackbar. Acreditar que a única razão pela qual existem mais mulheres é porque a presidente da Lucasfilm quer ficar bem vista aos olhos das feministas é para lá de absurdo.
O que me custou mais, até agora, foi ler opiniões de homens que acham que as mulheres não têm lugar no mundo de Star Wars, seja como personagens ou como fãs, porque afinal quem cresceu com Star Wars foram eles e Star Wars foi feito para eles. Arrisco-me a dizer que não sou a única a discordar. Arrisco-me a dizer que não sou a única fã desta saga. Quando fui ver The Last Jedi pela primeira vez, vi uma rapariga vestida de Leia Organa e agrada-me pensar que daqui para a frente posso encontrar raparigas disfarçadas de Leia e de Rey e de Holdo e de Rose. Porque Star Wars é de quem quiser. E porque, quer queiram, quer não, as mulheres têm lugar nesta franquia, tanto como no mundo real. E se lideram... é porque devem liderar.
Sei que este post está gigante, -se ainda estão a ler: obrigada!- mas quero falar de fracasso. E quero falar de fracasso em honra de Luke Skywalker e da Ordem Jedi. Toda a história dos Jedi os estabelece como uma Ordem perfeita e intocável. E nunca foi o caso. Tanto os Jedi como os Sith são absolutos defeituosos. O que nos leva de volta à lengalenga sobre legados e expectativas. Nós vimos o que acontece quando esperamos demais de alguém ainda antes de chegarmos a Ben Solo - olá, Anakin Skywalker.
Luke, o último Jedi, determinado a evitar erros do passado e, continuando a fazer jus ao seu carácter impulsivo, comete o que poderá ser o maior fracasso da sua vida. Ele traí a confiança do seu sobrinho quando considera assassiná-lo e acaba por ajudar a criar Kylo Ren. E como é que Luke reage ao seu fracasso? Esconde-se e determina que os seus erros e os erros do Jedi morrem com ele. Felizmente, Yoda aparece para incendiar uma árvore e lhe dar uma cacetada.
É preciso coragem para assumir o lado menos bom de um legado. O mito de perfeição e vaidade que rodeava Luke e os Jedi caí por terra. Resta a verdade com todos os seus sucessos e todos os seus fracassos. Rey e a próxima geração de Jedi não vão voltar a cometer os erros do passado, porque os vão conhecer. Ben Solo não teve a mesma sorte. Luke falhou e percebe a tempo que o voltará a fazer se não actuar. Um Jedi contra a Primeira Ordem. O último Jedi perfeitamente consciente dos seus defeitos e erros contra a Primeira Ordem. É o que basta para restaurar a esperança. É o que basta para salvar uma rebelião e proteger a promessa de um futuro melhor. And so he goes... Peace and Purpose.
A trilogia original teve tempo para descansar, para ver os seus defeitos perdoados e para se tornar o clássico que é hoje. The Last Jedi segue pelo mesmo caminho. Aceita tudo o que veio antes de si, mas vai mais além. E tem defeitos? Alguns. E com o tempo, vão esquecer-se deles. Eu quase que já o fiz - o poster deste filme está à espera de moldura e será também pendurado no meu quarto.
Antes de acabar, não podia deixar de falar de Carrie Fisher e da sua Leia. Estava longe de imaginar o que veria na sala de cinema quando vi a rapariga vestida de Leia e sorri. Porque independentemente da inevitável despedida que teria lugar no filme... Soube que a Leia viveria para sempre, nos filmes e no nosso imaginário. E que a Carrie Fisher viveria para sempre através dela.
Apercebi-me depois que era impossível ir preparada para o que vi. Nada foi feito com o intuito de servir como despedida, no entanto, todas as suas cenas ganham novo significado quando sabemos que é a última vez que a veremos no grande ecrã. Quando me recordo de alguns dos diálogos ainda me vêm lágrimas aos olhos. Foi a despedida que merecíamos, mas que nunca quisemos. No one's ever really gone... Carrie On Forever!
Se chegaram aqui, obrigada pela paciência. Entusiasmei-me um pouco, eu sei, mas tinha mesmo muito para dizer - 1491 palavras sem contar com este parágrafo, para ser exacta. Já o disse antes, no Twitter, e volto a dizê-lo nunca vou recuperar da experiência que foi ver The Last Jedi. E já o vi duas vezes...
May The Force Be With You!
PS:. E não podem dizer que o Poe Dameron foi descaracterizado, sem o conhecerem primeiro. A caracterização dele é boa e a forma como ele se desenvolve também.
PS #2:. O Chewie é o herói não celebrado deste filme.

0 comentários