Noite de Óscares

fevereiro 17, 2020

Mais um ano, mais uma cerimónia de Óscares, mais um conjunto de filmes que não consegui ver antes da cerimónia. Há coisas que não mudam e depois há Parasitas que muda tudo.

Ver os Óscares sempre foi importante para mim. Talvez por gostar de cinema, talvez por gostar de estar informada, talvez porque as celebridades mantêm uma aura mística para a qual não consigo evitar olhar, talvez por gostar de eventos desta ordem. Ou todas as opções acima. Perco uma noite de sono enquanto vejo outros ganharem estatuetas douradas - pequeno preço a pagar quando se assiste a eventos como o fiasco La La Land.

Sou a primeira a confessar que estas cerimónias se limitam a consagrar aquilo que todos esperamos. Cada anúncio de vencedor confirma um palpite formado durante toda a época de cerimónias e nada mais que isso. Este ano, tudo parecia alinhado para que 1917 - um filme de guerra e, como tal, o candidato perfeito - arrebatasse os Óscares, mas um filme chamado Parasite infiltrou-se na Academia - wow isto é tão metafórico.

 Bong Joon-ho escreveu e realizou um filme em que, segundo uma entrevista que deu ao Público, "queria mostrar de maneira clara, mas emocionante, o abismo que existe entre quem tem dinheiro e quem não tem dinheiro". Bong Joon-ho fê-lo em Coreano e isso parecia ser o suficiente para o desqualificar aos olhos da Academia. Considerando as 92 edições sem um grande vencedor internacional, ninguém podia com toda a convicção afirmar que seria este o desfecho - este artigo que se propõe a adivinhar os vencedores usando apenas a matemática mostra-nos exatamente o quão imprevisível era. 

Eu não sou excepção. Ainda que, depois de ver Parasitas, tenha dito que num mundo ideal venceria o prémio de Melhor Filme, não antecipava que ganhasse. Mas ganhou. E o que é que isto significa? Para muitos significa que a Academia vez o que muitas vezes falha em fazer: premiou o melhor filme do ano. Para outros mostra que a Academia está pronta para alargar horizontes e reconhecer que um bom filme não tem fronteiras. E todos aqueles que têm medo que a sua língua não seja suficientemente expressiva para chegar ao patamar mais elevado da indústria do cinema pode agora ter alguma esperança de que isso não seja verdade.

 A verdade é que o filme de Bong Joon-ho não precisava do Óscar. Arrecadou 165.3 milhões de dólares, a Palma de Ouro em Cannes e tornou-se um favorito junto das audiências. Mas a verdade é que o reconhecimento por parte da Academia é também importante. Por muito que seja difícil de admitir, os Óscares têm um efeito retroactivo. A publicidade que se faz a um vencedor, desperta a curiosidade daqueles que andam por aí distraídos. Os Óscares apenas garantiram que Parasite será popular junto não só de cinéfilos, mas de uma audiência mais alargada. Essa audiência olhará para o abismo que existe entre quem tem dinheiro e quem não tem dinheiro e a mensagem de Boon Joon-ho será propagada - se será percebida ou não, é outra história, mas quero ter fé no poder de interpretação das audiências ainda que reconheça que nada nos dias que correm será consensual. 

Li que era uma daquelas coisas que parece impossível até acontecer, quando subitamente parece inevitável. E pode até ser uma vitória inconsequente, mas garantiu que pelo menos até para o ano... a Academia pareça estar disposta a abrir portas. E não quero com isto dizer que Parasite ganhou porque isso seria boa publicidade para os Óscares, mas certamente funciona a favor de uma instituição que, apesar de tudo, ainda cheira a mofo.

 A prova de que a Academia não é assim tão adepta de mudança como parece agora, reside em Kathryn Bigelow. Em 2010, Bigelow tornou-se a primeira a levar para casa a estatueta dourada para Melhor Realização. Até agora continua a ser a única mulher tê-lo feito. Desde que Bigelow venceu, apenas uma outra mulher foi nomeada: Greta Gerwig, com Lady Bird, em 2018. Este ano, Gerwig era elegível e, no entanto, ignorada. E este é apenas um nome, e provavelmente o menos controverso, numa lista extensa de mulheres que a Academia ignorou em prol de uma seleção exclusiva de homens.

Não é perseguição, nem é diminuir/desprezar o trabalho daqueles que foram reconhecidos. É saber que esta instituição tem uma tendência a ignorar tudo o que seja fora da norma: seja géneros de filmes ou géneros de realizadores. A mudança é não só urgente, mas justificada. Há cada vez mais mulheres a fazerem filmes e a Academia, tendo ainda um poder gigantesco junto da indústria, tem de começar a reconhecer o seu papel no meio deste novo mundo se quer continuar a ser relevante.

Quando os nomeados são anunciados há sempre uma algazarra e nunca parecemos satisfeitos. É o produto de uma sociedade que não se sente representada na maior cerimónia da Sétima Arte, mesmo quando há representação no grande ecrã que a cerimónia honra. É porque mais uma vez a instituição prefere perpetuar o ciclo de vida das suas políticas do que fazer um esforço para fazer uma selecção representativa de tudo o que se passa do cinema. Falta diversidade e isso não é surpresa ou segredo, mas no dia em que deixar de ser revoltante é o dia em que teremos perdido.

Para já, a vitória de Parasitas acalma os ânimos e trás esperança - nem que seja pela raridade que é ver um filme popular a vencer o Óscar de Melhor Filme. Mas se para o ano ouvirem todos os cinéfilos reclamar com os nomeados voltámos ao mesmo: uma indústria que dá ênfase a novas formas de consumir cinema, nomeadamente, serviços streaming - a Netflix - mas que continua a ignorar muitos dos que fazem filmes.

Temos um ano de cinema pela frente antes de termos de conhecer nomeados e perder mais uma noite para ver uma cerimónia que pode ou não ser mais do mesmo. Resta-nos esperar para ver.

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Há ainda um artigo  sobre a ausência de realizadoras nas nomeações. E porque a falta de diversidade não é apenas a nível de género, há ainda este artigo  para os que querem ler mais sobre as outras falhas da academia. E, por fim, um artigo  para os que querem saber um pouco mais sobre a campanha que levou com que  Parasite  fizesse história.

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