I, Sofia, on I, Tonya
março 06, 2018
Eu sei que a esta altura, os biopics são fórmulas conhecidas: drama em cima de drama e obstáculos a serem ultrapassados por um protagonista que acabamos por admirar de uma maneira ou de outra. Mas não esperem isso de I, Tonya. Ela não se conforma com fórmulas.A vida de Tonya Harding parece demasiado boa para ser verdade. Pelo menos do ponto de vista cinematográfico. Se não sabem nada sobre a vida dela e sobre o incidente que a tornou famosa... Preparem-se para algo quase inacreditável.
O guião é baseado em entrevistas com cada um dos envolvidos e entrevistas antigas. A forma como as várias e contraditórias versões de cada uma das personagens são incorporadas numa única história é interessante. O resultado é um mockumentary: um termo geralmente usado para uma história de ficção apresentada como um documentário. Os eventos aconteceram. Se foi desta forma ou de outra... Isso é outro assunto.
A grande vitória do filme é mesmo a forma como está aberto a interpretações. Não iliba a sua protagonista de culpa e, ao mesmo tempo, faz com que simpatizemos com ela - não fosse um biopic. Dois minutos depois de ver o filme estava do lado de Tonya Harding, dez minutos depois já considerava que tinha sido responsável pelo que lhe tinha acontecido e trinta minutos comecei a reflectir no papel que os media tinham no meio desta história.
Então em que ficamos? Bem, eis o que retiro: Tonya nunca teve a vida facilitada. As suas relações pessoais não eram de todo saudáveis e no mundo da patinagem artística as suas origens humildes faziam dela o patinho feio num mundo elitista. É impossível não sentir algum nível de simpatia por ela. Contudo, não estou completamente convencida da sua inocência. Ela tinha algum conhecimento de que algo ia acontecer e quando aconteceu sabia que não era coincidência e acaba por se tornar cúmplice. Mas a forma absurda como a vida de Tonya e a sua imagem foram exploradas pelos media acaba por nos voltar a puxar para o lado dela. Antes da competição/audiência em tribunal que viriam a decidir o seu futuro, o escrutínio de que foi alvo acabou por a condenar à derrota. Então Tonya é inocente? Não. Mas gostamos dela? Sim!
Está escrito de forma inteligente, está editado de forma inteligente e interpretado de forma brilhante. Por esta altura, não é segredo que as performances de Margot Robbie e de Allison Janney estão nomeadas para Óscar. Estou confiante de que Janney será galardoada, a sua LaVonna é tão peculiar e cruel que assombra toda a vida de Tonya e, como tal, todo o filme. Robbie, para além de produzir o filme, dá a sua cara e corpo à protagonista de forma destemida e mesmo brilhante, mas terá de esperar mais uns anos pela sua estatueta.
E embora Robbie e Janney sejam em grande parte responsável pelo sucesso desta narrativa, não podia deixar de escrever sobre Sebastian Stan. Não só porque sou uma fã dele e do seu Bucky Barnes, - major marvel fangirl alert - mas porque ele faz com que a personagem dele ganhe uma dimensão mais... humana. O que faz com que a relação com Tonya ganhe toda uma nova dimensão. É difícil pensar em qualquer relação de Tonya como amorosa, mas sabemos que é assim que Jeff vê a relação deles.
I, Tonya (à imagem de Tonya Harding) não se conforma. Atreve-se a fazer aquilo que ainda ninguém tentou. Em vez de limar as arrestas desta narrativa para que se tornasse tudo aquilo que um biopic deve ser, criaram um universo que todos os seus elementos pudessem sobreviver. E, no final de contas, o sucesso deste filme reside nesses elementos: nas várias e conflituosas narrativas, na comédia que encontraram dentro de momentos dramáticos, na quebra da "quarta parede" que faz com que toda a narrativa seja ainda mais subjectiva e nas suas personagens nada fiáveis, defeituosas e humanas e nas suas relações inflamadas. Uma verdadeira história multidimensional. Um triple axle cinematográfico. Que merece dez pontos all across the board - embora só deva arrecadar um Óscar, com muita pena minha.
A grande vitória do filme é mesmo a forma como está aberto a interpretações. Não iliba a sua protagonista de culpa e, ao mesmo tempo, faz com que simpatizemos com ela - não fosse um biopic. Dois minutos depois de ver o filme estava do lado de Tonya Harding, dez minutos depois já considerava que tinha sido responsável pelo que lhe tinha acontecido e trinta minutos comecei a reflectir no papel que os media tinham no meio desta história.
Então em que ficamos? Bem, eis o que retiro: Tonya nunca teve a vida facilitada. As suas relações pessoais não eram de todo saudáveis e no mundo da patinagem artística as suas origens humildes faziam dela o patinho feio num mundo elitista. É impossível não sentir algum nível de simpatia por ela. Contudo, não estou completamente convencida da sua inocência. Ela tinha algum conhecimento de que algo ia acontecer e quando aconteceu sabia que não era coincidência e acaba por se tornar cúmplice. Mas a forma absurda como a vida de Tonya e a sua imagem foram exploradas pelos media acaba por nos voltar a puxar para o lado dela. Antes da competição/audiência em tribunal que viriam a decidir o seu futuro, o escrutínio de que foi alvo acabou por a condenar à derrota. Então Tonya é inocente? Não. Mas gostamos dela? Sim!
Está escrito de forma inteligente, está editado de forma inteligente e interpretado de forma brilhante. Por esta altura, não é segredo que as performances de Margot Robbie e de Allison Janney estão nomeadas para Óscar. Estou confiante de que Janney será galardoada, a sua LaVonna é tão peculiar e cruel que assombra toda a vida de Tonya e, como tal, todo o filme. Robbie, para além de produzir o filme, dá a sua cara e corpo à protagonista de forma destemida e mesmo brilhante, mas terá de esperar mais uns anos pela sua estatueta.
E embora Robbie e Janney sejam em grande parte responsável pelo sucesso desta narrativa, não podia deixar de escrever sobre Sebastian Stan. Não só porque sou uma fã dele e do seu Bucky Barnes, - major marvel fangirl alert - mas porque ele faz com que a personagem dele ganhe uma dimensão mais... humana. O que faz com que a relação com Tonya ganhe toda uma nova dimensão. É difícil pensar em qualquer relação de Tonya como amorosa, mas sabemos que é assim que Jeff vê a relação deles.
I, Tonya (à imagem de Tonya Harding) não se conforma. Atreve-se a fazer aquilo que ainda ninguém tentou. Em vez de limar as arrestas desta narrativa para que se tornasse tudo aquilo que um biopic deve ser, criaram um universo que todos os seus elementos pudessem sobreviver. E, no final de contas, o sucesso deste filme reside nesses elementos: nas várias e conflituosas narrativas, na comédia que encontraram dentro de momentos dramáticos, na quebra da "quarta parede" que faz com que toda a narrativa seja ainda mais subjectiva e nas suas personagens nada fiáveis, defeituosas e humanas e nas suas relações inflamadas. Uma verdadeira história multidimensional. Um triple axle cinematográfico. Que merece dez pontos all across the board - embora só deva arrecadar um Óscar, com muita pena minha.
0 comentários