A Star Is Born
outubro 24, 2018
Ainda não consegui parar de pensar em A Star Is Born. Entrei na sala de cinema sem conhecer as outras reencarnações da história e sem saber muito bem o que esperar. Quer dizer... Estava à espera de algo bom - não sou imune aos inúmeros tweets e críticas positivas. Não estava à espera que assombrasse o pensamento - escreve a pessoa que ainda está a ouvir a incrível banda sonora.
Cuidado com os spoilers.
Como é que se pega em material já usado (não uma, não duas, mas um total de três vezes) e se cria algo com vida própria? Perguntem ao Bradley Cooper. Pelo que li e pelo que me foi dito, a narrativa não se desvia muito da fórmula original o que me leva a concluir que a razão pela qual o filme consegue relativa independência dos predecessores está nos detalhes.
Cooper preocupou-se em criar algo fiel, mas pessoal. A sua dor, os seus vícios e mesmo elementos dos seus sonhos são parte integrantes do filme. O elenco está repleto de pessoas (e um cão) importantes para ele. A personagem de Lady Gaga foi concebida à imagem da mesma. O bar de drag queens é uma homenagem ao início da carreira da cantora/actriz. O nariz? É uma insegurança pessoal de Gaga. Algo que podia ser apenas mais do mesmo, torna-se especial... Porque é especial para os dois motores do filme, Cooper e Gaga.
Há algo genuíno na forma como Ally (Gaga) e Jackson Maine (Cooper) olham um para o outro, como se percebem e como se relacionam. É um encontro fortuito entre duas pessoas que se complementam. Duas pessoas que, por acaso, têm um talento musical extraordinário. A grande diferença entre os dois é a fama: Jackson canta em festivais, Ally canta num bar. Mas Jackson reconhece algo nela, "puxa-a" para os holofotes e esta diferença rapidamente é obliterada.
A narrativa é um paralelo entre o romance e os trajectos profissionais divergentes dos protagonistas. A relação progride, Ally ascende à fama e a carreira de Jackson vai, gradualmente, descarrilando. E é aqui que temos de discutir uma das maiores críticas ao filme... A falta de equilíbrio do guião em relação entre Ally e Jackson.
Nós conhecemos todos os aspectos de Jackson. A dor, os vícios, o passado, todos os pormenores do declínio. Muitos argumentam que Ally se perde no meio disto. Não sabemos o seu passado, não conhecemos todas as minúcias do seu sucesso e ainda se fica com a impressão que Ally é aquilo que os homens na vida dela dizem que ela é - e só lhe é conferido um apelido depois de se casar.
Para além disso, manipulam-nos a censurar as escolhas que fez com a sua carreira - primeiro porque achamos que não foram escolhas dela e depois porque o conteúdo da sua mensagem é inferior ao que tinha feito até então. E até ao culminar do filme, é usada como peão nas batalhas pessoais do Jack e implicitamente declarada culpada pelas recaídas do marido - por produzir música pop "pouco genuína" e esta ser um sucesso.
Será que adoramos um filme misógino ou estamos apenas a rever a nossa realidade? Um mundo em quem dita as regras do sucesso são homens e em que temos de ser aquilo que eles querem de nós para chegar a algum lado - signifique isso pintar o cabelo de laranja ou ter dançarinos em palco.
Li um artigo que defende que o filme nos proporciona "uma reflexão perfeita da misoginia institucionalizada" e critica-o por não ser mais crítico face ao mesmo. Concordo. É o único motivo de controvérsia relacionado com A Star Is Born, o que significa que estamos a ficar mais críticos face ao conteúdo que consumidos e a forma como representa e deve questionar a realidade.
Significa isto que não devemos gostar do filme de Bradley Cooper? Não. Significa que temos de olhar para ele da perspectiva certa. O filme nunca foi sobre Ally, mas sim sobre Jackson Maine, o seu alcoolismo e toxicodependência. O filme começa e acaba com ele. Não é uma história de superação. Nem uma história em que o amor o salva do seus vícios. É um processo constante com altos e baixos. É real.
O que nos leva à questão do título. Não, não é enganador. Eis a explicação de como nasce uma estrela, retirada directamente daquerida Wikipedia:
Essencialmente, durante duas horas, estamos a assistir à supernova de Jackson Maine. Se quisermos ser muito minuciosos, assistimos também ao colidir de várias galáxias: Jack e Ally; country e pop; autenticidade e sucesso. O título diz-nos exactamente aquilo que o filme nos oferece: a instabilidade gravitacional dentro de uma nuvem molecular, cujo gatilho são ondas de choque provenientes de supernovas/colisão de duas galáxias. Vemos o nascer e não o concretizar da estrela. A história é de Jack, mas tem impacto em Ally. Ela não é o centro, mas a consequência - um peão na história de Jack.
A Star Is Born também diz muito sobre nós enquanto público/sociedade. Um incidente de Jack quase acaba com a carreira de Ally. Para além de ser mais um reflexo da misoginia é, na minha opinião, um comentário sobre a forma como o público olham para o vício. Jack e o seu comportamento são ridicularizados e Ally, ao perdoá-lo, é censurada. O que Ally vê que a audiência não consegue, é que o vício de Jack é uma doença. Algo que tem de ser curado e não ridicularizado. Isso é algo que enquanto audiência (falando de um modo geral) ainda temos dificuldade em compreender. Não só porque é uma doença do foro psicológico, mas porque durante anos fomos condicionados a achar que era apenas uma parte da indústria do espectáculo.
Há anos que o álcool/alcoolismo e as drogas/toxicodependência foram glorificados em representações no grande e pequeno ecrã e mesmo na música. O público parece ainda não conseguir apagar esta glorificação quando a lidar com um vício e vêm-o como uma escolha e uma escolha pode ser ridicularizada, certo? Temos desculpa, certo? Ele sabia o que estava a fazer...
Até se suicidar. Depois disso a música dele volta a tocar em todo o lado. A empatia que até então não tinham, surge em demonstrações públicas de afecto. E quando Ally (Maine) entra em palco, é confrontada por uma galáxia de pessoas que o querem honrar. Pareceu-me uma história demasiado familiar, algo que já assistimos várias vezes, mas não vezes suficientes para aprendermos.
Há muito a dizer e debater sobre A Star Is Born. Mas só uma coisa é incontestável: Lady Gaga. Muitos podem desvalorizar o que ela fez porque a personagem foi feita à sua medida. Bullshit! Há que dar crédito à performance desta mulher. Lady Gaga dá a Ally a justiça que o guião nega. Torna-a tangível, real, vulnerável e forte. E dou comigo a questionar: será que ela estava à mercê daqueles homens ou queria que eles pensassem que estava?A sua performance é consistentemente espectacular, mas a última cena deixa-me à vontade para apostar que em breve nos vamos referir a Lady Gaga como "Academy Award Nominee Lady Gaga".
Podia continuar a discutir este filme, mas acho que as 1217 palavras acima chegam por agora. Se quiserem acrescentar algo deixem-me um comentário ou encontrem-me no twitter (@sholfs).
ps:. aquele outdoor, no princípio do filme, é um bom e subtil foreshadowing. adoro foreshadowings.
Há algo genuíno na forma como Ally (Gaga) e Jackson Maine (Cooper) olham um para o outro, como se percebem e como se relacionam. É um encontro fortuito entre duas pessoas que se complementam. Duas pessoas que, por acaso, têm um talento musical extraordinário. A grande diferença entre os dois é a fama: Jackson canta em festivais, Ally canta num bar. Mas Jackson reconhece algo nela, "puxa-a" para os holofotes e esta diferença rapidamente é obliterada.
A narrativa é um paralelo entre o romance e os trajectos profissionais divergentes dos protagonistas. A relação progride, Ally ascende à fama e a carreira de Jackson vai, gradualmente, descarrilando. E é aqui que temos de discutir uma das maiores críticas ao filme... A falta de equilíbrio do guião em relação entre Ally e Jackson.
Nós conhecemos todos os aspectos de Jackson. A dor, os vícios, o passado, todos os pormenores do declínio. Muitos argumentam que Ally se perde no meio disto. Não sabemos o seu passado, não conhecemos todas as minúcias do seu sucesso e ainda se fica com a impressão que Ally é aquilo que os homens na vida dela dizem que ela é - e só lhe é conferido um apelido depois de se casar.
Para além disso, manipulam-nos a censurar as escolhas que fez com a sua carreira - primeiro porque achamos que não foram escolhas dela e depois porque o conteúdo da sua mensagem é inferior ao que tinha feito até então. E até ao culminar do filme, é usada como peão nas batalhas pessoais do Jack e implicitamente declarada culpada pelas recaídas do marido - por produzir música pop "pouco genuína" e esta ser um sucesso.
Será que adoramos um filme misógino ou estamos apenas a rever a nossa realidade? Um mundo em quem dita as regras do sucesso são homens e em que temos de ser aquilo que eles querem de nós para chegar a algum lado - signifique isso pintar o cabelo de laranja ou ter dançarinos em palco.
Li um artigo que defende que o filme nos proporciona "uma reflexão perfeita da misoginia institucionalizada" e critica-o por não ser mais crítico face ao mesmo. Concordo. É o único motivo de controvérsia relacionado com A Star Is Born, o que significa que estamos a ficar mais críticos face ao conteúdo que consumidos e a forma como representa e deve questionar a realidade.
Significa isto que não devemos gostar do filme de Bradley Cooper? Não. Significa que temos de olhar para ele da perspectiva certa. O filme nunca foi sobre Ally, mas sim sobre Jackson Maine, o seu alcoolismo e toxicodependência. O filme começa e acaba com ele. Não é uma história de superação. Nem uma história em que o amor o salva do seus vícios. É um processo constante com altos e baixos. É real.
O que nos leva à questão do título. Não, não é enganador. Eis a explicação de como nasce uma estrela, retirada directamente da
A formação de uma estrela começa com uma instabilidade gravitacional dentro da nuvem molecular, cujo gatilho são frequentemente ondas de choque provenientes de supernovas ou da colisão de duas galáxias. (x)
Essencialmente, durante duas horas, estamos a assistir à supernova de Jackson Maine. Se quisermos ser muito minuciosos, assistimos também ao colidir de várias galáxias: Jack e Ally; country e pop; autenticidade e sucesso. O título diz-nos exactamente aquilo que o filme nos oferece: a instabilidade gravitacional dentro de uma nuvem molecular, cujo gatilho são ondas de choque provenientes de supernovas/colisão de duas galáxias. Vemos o nascer e não o concretizar da estrela. A história é de Jack, mas tem impacto em Ally. Ela não é o centro, mas a consequência - um peão na história de Jack.
A Star Is Born também diz muito sobre nós enquanto público/sociedade. Um incidente de Jack quase acaba com a carreira de Ally. Para além de ser mais um reflexo da misoginia é, na minha opinião, um comentário sobre a forma como o público olham para o vício. Jack e o seu comportamento são ridicularizados e Ally, ao perdoá-lo, é censurada. O que Ally vê que a audiência não consegue, é que o vício de Jack é uma doença. Algo que tem de ser curado e não ridicularizado. Isso é algo que enquanto audiência (falando de um modo geral) ainda temos dificuldade em compreender. Não só porque é uma doença do foro psicológico, mas porque durante anos fomos condicionados a achar que era apenas uma parte da indústria do espectáculo.
Há anos que o álcool/alcoolismo e as drogas/toxicodependência foram glorificados em representações no grande e pequeno ecrã e mesmo na música. O público parece ainda não conseguir apagar esta glorificação quando a lidar com um vício e vêm-o como uma escolha e uma escolha pode ser ridicularizada, certo? Temos desculpa, certo? Ele sabia o que estava a fazer...
Até se suicidar. Depois disso a música dele volta a tocar em todo o lado. A empatia que até então não tinham, surge em demonstrações públicas de afecto. E quando Ally (Maine) entra em palco, é confrontada por uma galáxia de pessoas que o querem honrar. Pareceu-me uma história demasiado familiar, algo que já assistimos várias vezes, mas não vezes suficientes para aprendermos.
Há muito a dizer e debater sobre A Star Is Born. Mas só uma coisa é incontestável: Lady Gaga. Muitos podem desvalorizar o que ela fez porque a personagem foi feita à sua medida. Bullshit! Há que dar crédito à performance desta mulher. Lady Gaga dá a Ally a justiça que o guião nega. Torna-a tangível, real, vulnerável e forte. E dou comigo a questionar: será que ela estava à mercê daqueles homens ou queria que eles pensassem que estava?A sua performance é consistentemente espectacular, mas a última cena deixa-me à vontade para apostar que em breve nos vamos referir a Lady Gaga como "Academy Award Nominee Lady Gaga".
Podia continuar a discutir este filme, mas acho que as 1217 palavras acima chegam por agora. Se quiserem acrescentar algo deixem-me um comentário ou encontrem-me no twitter (@sholfs).
ps:. aquele outdoor, no princípio do filme, é um bom e subtil foreshadowing. adoro foreshadowings.

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