Joker Joker Joker

novembro 05, 2019


Vi o Joker no Dia Mundial da Saúde Mental. Quando saí do cinema, eu e os amigos que me acompanharam sentimos que tinha sido incrivelmente importante. É o mais singular filme no universo dos filmes de super-heróis. Inteiramente focado numa personagem que, geralmente, nunca teria tanto tempo de ecrã, Joker dedica-se a explorar a componente psicológica do vilão, mais do que a desenhar um plano maléfico que ele tentará levar a cabo. 

Sai da sala algo irritada/nervosa depois de ser confrontada por uma sociedade que não aceita que as doenças do foro psicológico são uma realidade, mesmo quando um individuo confessa tê-las durante um talk-show e segue a dita confissão com um homicídio. Para a audiência parece ser mais simples acreditar que Arthur Fleck era movido por uma crença política do que processar o facto de que fazem parte da sociedade que o ostracizara devido aos seus problemas o que acabou por contribuir para o deterioramento dos mesmos.

Felizmente, o filme criou um diálogo sobre o quão importante é a saúde mental. A narrativa de Artur Fleck é exímia e irrepreensível a retratar factos como a vulnerabilidade daqueles que passam por um trauma e/ou abuso, a forma como os sintomas podem derivar do ambiente que os rodeia e a negligência e falta de compreensão de toda uma sociedade. Tudo isto contribuí para a desconstrução do preconceito que rodeia este tópico e todos podemos beneficiar disto.

Joker cria uma compreensão pelo psicológico da personagem e ao fazê-lo algo inadvertidamente, mas previsivelmente, acontece: cultiva-se uma empatia absurda pelos actos hediondos deste homem e, até certo ponto, alimenta-se a ideia de que as patologias psicológicas levam a tendências violentas - o que não corresponde à verdade. Artur Fleck só magoa aqueles que o trataram mal, logo desculpamos. E onde fica o limite? Quando é que deixamos de perdoar o imperdoável? É importante que a discussão que rodeia o filme também passe por aqui.

Os debates sobre a forma como os media tratam aqueles que cometem crimes violentos são abundantes. Terrorismo e doenças mentais tornaram-se mutuamente exclusivos: um suspeito ou é rotulado como terrorista ou como vítima de uma qualquer patologia do foro psicológico diagnosticada de forma pouco educada. Esta distinção é sistematicamente feita de forma preconceituosa. E todos sabemos que uma das distinções é mais abonatória. Isto leva a questões pertinentes. Até que ponto é que as doenças mentais desculpam um sujeito? E porque é que somos mais rápidos a desculpar certos sujeitos?

Sem rodeios: é importante parar de desculpar crimes cometidos por homens caucasianos usando diagnósticos que na verdade são especulação.  Aliás, até que seja feito um verdadeiro diagnóstico devíamos abster-nos de comunicar algo que pode ou não ser verdade e que irá ajudar no reforço de um estigma que não conseguimos ainda abolir - ver parágrafo sobre como uma comunidade inteira prefere acreditar que é um statement político e não fruto de uma doença psicológica. 

E quando dito diagnóstico for divulgado - porque tentar perceber o que pode motivar uma pessoa a fazer algo desta natureza é algo que não conseguimos evitar - a forma como guiamos o debate deve ser mais consciente. Sim, compreender o que motiva torna tudo mais simples de processar e conseguimos um semblante de paz. Mas este não pode assentar nas palavras superficiais "claro que era maluco, só podia ser maluco" ou na crença que a saúde mental é abonatória. A única coisa que isso garante é que o estigma segue imperturbado ou até mesmo reforçado.

Joker falha naquilo que os media falham: volta a desculpar um homem caucasiano citando as suas doenças mentais. Ele só ataca quem o magoa, não pode ser uma desculpa. É algo a ter em conta, mas não é algo que o deva ilibar exactamente porque se o fizer contribuí para um estigma que não corresponde à realidade. Fomentar esta prática é território perigoso. E é urgente sermos mais responsáveis na forma como retratamos doenças psicológicas.

Era algo inevitável, mas pode ser o catalisador de conversas interessantes. Ou podia ter sido. Contudo duas coisas aconteceram: a cobertura mediática focou-se na premissa de que este filme é um incentivo à violência e a crítica sentenciou que o filme era imperdível. As discussões importantes diluíram-se entre debates sobre o que é violento e a corrida aos Óscares.

Para que conste: não é de todo um incentivo à violência, mas é mais simples vender essa narrativa e criar polémica desnecessária ao tentar demover as pessoas de verem o filme - o que acaba por incentivá-las a fazê-lo e, de facto, Joker é o filme Rated R mais rentável de sempre. E, no que diz respeito aos Óscares, Joaquin Phoenix tem boas razões para começar a preparar um discurso.

Mas voltando ao que interessa: Joker para além de ser um filme incrível a nível visual e a nível de interpretação, criou um diálogo importante sobre saúde mental. Isto é bom. Temos de começar por algum lado e qualquer passo na direção certa é de louvar - a cultura do tudo ou nada ignora de forma conveniente a natureza não imediata do progresso. Os outros diálogos estão a acontecer em paralelo e num volume muito mais baixo. Se continuarmos a andar chegaremos a um lugar em que os ouviremos de forma clara e surgiram outros sons em surdina para os quais vamos ter de caminhar.

Se já leram até aqui, já perceberam tudo o que faz deste filme o mais singular filme no universo dos filmes de super-heróis. Mesmo sem referir a fundo a qualidade cinematográfica do filme, é perceptível pela forma como gerou de forma inequivocamente um debate sobre um tema tão sério e como juntou imediatamente argumentos para uma corrida aos Óscares.

Isto não acontece com os típicos filmes de super-heróis. Embora as audiências adorem este tipo de filmes, para alguns cinéfilos é difícil conceber a qualidade dos filmes deste género. Como se por trás da acção, efeitos especiais, spandex e fogo de artifício seja inconcebível ver qualidade e profundidade destes filmes. E, como fã de filmes de super-heróis, sinto-me  na necessidade de tirar um momento para os defender. Criar um diálogo sobre saúde mental - ou qualquer outro tema - não é algo tão imediato como acontece em Joker, mas são um meio poderoso para vincular ideias. E isso é algo que Martin Scorsese ignora quando declara que "aquilo não é cinema de pessoas a tentarem transmitir experiências emocionais e psicológicas a outros seres humanos”.

É algo triste que um filme deste universo tenha de ser vestido de forma tão diferente só para ser aceite pelas elites do cinema. A Academia, Scorsese, Francis Ford Coppola - etcetera - precisam de começar a reconhecer a importância deste género. O que está na banda desenhada pode encontrar o seu caminho até ao grande ecrã de várias formas: Joker, o drama desenhado de forma cuidada e executado de forma perfeita merece todos os créditos que obteve e é parte deste universo que eles tentam menosprezar. Se Joker contribuir um pouco para que o paradigma mude, é mais um estigma que pode ajudar a desconstruir.

Num outro apontamento: é curioso que o maior êxito recente da DC seja um vilão. A maior crítica feita à Marvel era o quão uni dimensionais eram os seus vilões e embora Thanos tenha mudado um pouco as coisas, Thanos é um em dez anos de universo cinematográfico. Com Joker, a DC toca na ferida do seu maior concorrente e mostra que ainda tem trunfos na manga que não a Wonder Woman de Patty Jenkins e Gal Gadot.

Questões como: as semelhanças entre as duas senhoras que questionam Arthur Fleck sobre o seu estado psicológico é simbólica ou coincidência e a vizinha foi assassinada ou não e o que isso implica na história são provas de que o que há para dizer sobre Joker está longe de esgotar.

Há muito para dizer sobre Joker que não foi dito e o que foi dito pode ser desdito e dito outra vez. Depois do riso, da maquilhagem, da cinematografia, da interpretação soberba de Joaquin Phoenix, o espectáculo continua.

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Deixo aqui dois artigos que li para escrever este para os curiosos:
Terrorism or mental health problem? Let's not jump to conclusions 
Does 'Joker' Harm or Help the Public's Perception of Mental Illness?

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