This is a love story, PWB
outubro 22, 2019
Encontrar Fleabag foi um golpe de sorte. A série não era - e ainda não é muito - popular. Mas o feedback de quem via a série era positivo. De tal forma que cedi à tentação e devorei duas temporadas do que considero ser uma das melhores séries de sempre - e antes que comecem a julgar a rapidez com que consumi a série, considerem o seguinte: são 12 episódios de 20 minutos.
Há um nome - um nome que não consigo pronunciar sem ser por extenso - a que devemos esta série: Phoebe Waller-Bridge. Quem produz? Phoebe Waller-Bridge. Quem escreve? Phoebe Waller-Bridge. Quem protagoniza? Phoebe Waller-Bridge. Quem recebeu três Emmys pelo seu trabalho? Phoebe.Waller. Bridge.
Há um nome - um nome que não consigo pronunciar sem ser por extenso - a que devemos esta série: Phoebe Waller-Bridge. Quem produz? Phoebe Waller-Bridge. Quem escreve? Phoebe Waller-Bridge. Quem protagoniza? Phoebe Waller-Bridge. Quem recebeu três Emmys pelo seu trabalho? Phoebe.Waller. Bridge.
Killing Eve, protagonizada por Sandra Oh e Jodie Comer, pode ser a sua obra mais conhecida de Phoebe Waller-Bridge, mas Fleabag é a sua melhor obra. Aquilo que surgiu como um monólogo para um festival de teatro, transformou-se num fascinante momento de televisão.
Há poucas pessoas na minha vida que ainda não me ouviram a pronunciar a palavra "fleabag". Falo da série e de Phoebe Waller-Bridge com um fervor quase evangélico - "convertam-se à palavra de Phoebe Waller-Bridge" podia ser o título deste post. Mas é só prova do quão incrível é a qualidade desta série.
A premissa é simples - uma jovem adulta, que vive em Londres, tenta lidar com uma situação traumática - a forma honesta, desenvergonhada, livre de complexos de Fleabag diz-nos algo. Literalmente. De olhos fixos na câmara, a personagem principal entrega-nos pedaços de informação, comentários e faz de nós personagens.
A relação que Fleabag estabelece com a audiência é o aspecto mais importante da série. Esta muda e evolui. Conhecemos Fleabag na forma como age junto dos outros e como se dirige a nós. Aprendemos que nem tudo o que nos é dito corresponde à verdade, que Fleabag é tão parcial como qualquer um de nós. Na primeira temporada, o acesso que nos era concedido à intimidade desta personagem era praticamente ilimitado. Na segunda, é-nos negado acesso ao que mais queremos assistir. Na primeira, Fleabag esconde-nos algo de que se envergonha. Na segunda, esconde-nos algo que a faz genuinamente feliz. Em ambas, precisa de nós e em ambas perdemos relevância à medida que os eventos se desenrolam. Somos espectadores com privilégios.
Embora tente controlar um pouco a narrativa - especialmente na primeira temporada -, no geral, Fleabag limita-se a existir. Sem pedir clemência. Ela simplesmente é Fleabag. Aliás, Fleabag é o título da série e da personagem. O verdadeiro nome dela - se é que há um - não é proferido uma única vez. Porque Fleabag é Fleabag. Não uma personagem de uma narrativa secundária. Não o interesse amoroso. Não uma imagem daquilo que se espera que as mulheres sejam. Ela é uma personagem com defeitos e nuances - algo que parecia estar reservado para homens - e está no centro do furacão.
Para além disso: Fleabag é sobre a relação dela com a sua irmã. Sobre a relação dela com a sua melhor amiga. Sobre a relação dela com o luto. Sobre a relação dela com o seu pai. Sobre a relação dela com o Padre. Cada uma delas merecia uma publicação por si só e muitas horas a rever a série para captar as nuances de todas elas. Há momentos incrivelmente especiais em cada. uma. delas.
Se ainda não viram a segunda temporada, saltem o resto deste parágrafogigante! Preciso de um momento para discutir a relação amorosa da segunda temporada, a forma como algo que era íntimo para Fleabag - a.k.a. as palavras e olhares que nos dirige - é subitamente reconhecido por outra pessoa. A forma como o Hot Priest - também ele despido de nome e envergando apenas um título- vê tudo em Fleabag e como isso a confunde. Ela perde noção daquilo que nos quer dizer e daquilo que diz. Eles bebem latas de Gin e Tónico. Ele faz com que ela confesse o quão perdida se sente, o quanto quer que lhe digam o que façam. Ela faz com que ele perca a paz. Ambos nos fazem torcer por uma relação condenada. Numa paragem de autocarro, ela confessa o seu amor e pede apenas que essa confissão exista sem refutação ou resposta, até porque sabe que a resposta não é aquela que concede um final feliz. Numa paragem de autocarro, ele deixa-a com a promessa que "it will pass." E talvez passe... Ou talvez fiquemos todos num vazio emocional em forma de Andrew Scott e Phoebe Waller-Bridge numa paragem de autocarro. Não era o final que queríamos, mas o final que Fleabag precisava. E graças a Phoebe Waller-Bridge por isso.
Phoebe Waller-Bridge escreveu coisas que não se diziam, fez coisas que não se faziam e, em vez de ser mais uma série, ganhou 3 Emmys. "Sempre soube que dizer o indizível seria poderoso", disse a certa altura.... Boy, was she right.
É impossível dissociar as Fleabag de PWB e vice-versa. Fleabag, embora não seja autobiográfico, é algo pessoal para PWB. O resultado final pelo qual nos apaixonamos é fruto da sua honestidade, da sua vontade de chocar e da sua integridade artística: esta série não seria o mesmo se a tivessem vestido de drama em vez de a deixar ser a comédia que é, da mesma maneira que não seria a mesma se fosse mais comprida apenas para alimentar a nossa insaciável fome por conteúdo. Apaixonarem-se por Fleabag é apaixonarem-se por Phoebe Waller-Bridge.
This is a love story é algo que Fleabag nos diz no primeiro episódio da segunda temporada. E é. Porque não há uma parte de Fleabag que passe por nós sem nos esbofetear ou acariciar a cara. E a mão que desfere o golpe é a de Phoebe Waller-Bridge.
Há poucas pessoas na minha vida que ainda não me ouviram a pronunciar a palavra "fleabag". Falo da série e de Phoebe Waller-Bridge com um fervor quase evangélico - "convertam-se à palavra de Phoebe Waller-Bridge" podia ser o título deste post. Mas é só prova do quão incrível é a qualidade desta série.
A premissa é simples - uma jovem adulta, que vive em Londres, tenta lidar com uma situação traumática - a forma honesta, desenvergonhada, livre de complexos de Fleabag diz-nos algo. Literalmente. De olhos fixos na câmara, a personagem principal entrega-nos pedaços de informação, comentários e faz de nós personagens.
A relação que Fleabag estabelece com a audiência é o aspecto mais importante da série. Esta muda e evolui. Conhecemos Fleabag na forma como age junto dos outros e como se dirige a nós. Aprendemos que nem tudo o que nos é dito corresponde à verdade, que Fleabag é tão parcial como qualquer um de nós. Na primeira temporada, o acesso que nos era concedido à intimidade desta personagem era praticamente ilimitado. Na segunda, é-nos negado acesso ao que mais queremos assistir. Na primeira, Fleabag esconde-nos algo de que se envergonha. Na segunda, esconde-nos algo que a faz genuinamente feliz. Em ambas, precisa de nós e em ambas perdemos relevância à medida que os eventos se desenrolam. Somos espectadores com privilégios.
Embora tente controlar um pouco a narrativa - especialmente na primeira temporada -, no geral, Fleabag limita-se a existir. Sem pedir clemência. Ela simplesmente é Fleabag. Aliás, Fleabag é o título da série e da personagem. O verdadeiro nome dela - se é que há um - não é proferido uma única vez. Porque Fleabag é Fleabag. Não uma personagem de uma narrativa secundária. Não o interesse amoroso. Não uma imagem daquilo que se espera que as mulheres sejam. Ela é uma personagem com defeitos e nuances - algo que parecia estar reservado para homens - e está no centro do furacão.
Para além disso: Fleabag é sobre a relação dela com a sua irmã. Sobre a relação dela com a sua melhor amiga. Sobre a relação dela com o luto. Sobre a relação dela com o seu pai. Sobre a relação dela com o Padre. Cada uma delas merecia uma publicação por si só e muitas horas a rever a série para captar as nuances de todas elas. Há momentos incrivelmente especiais em cada. uma. delas.
Se ainda não viram a segunda temporada, saltem o resto deste parágrafo
Phoebe Waller-Bridge escreveu coisas que não se diziam, fez coisas que não se faziam e, em vez de ser mais uma série, ganhou 3 Emmys. "Sempre soube que dizer o indizível seria poderoso", disse a certa altura.... Boy, was she right.
É impossível dissociar as Fleabag de PWB e vice-versa. Fleabag, embora não seja autobiográfico, é algo pessoal para PWB. O resultado final pelo qual nos apaixonamos é fruto da sua honestidade, da sua vontade de chocar e da sua integridade artística: esta série não seria o mesmo se a tivessem vestido de drama em vez de a deixar ser a comédia que é, da mesma maneira que não seria a mesma se fosse mais comprida apenas para alimentar a nossa insaciável fome por conteúdo. Apaixonarem-se por Fleabag é apaixonarem-se por Phoebe Waller-Bridge.
This is a love story é algo que Fleabag nos diz no primeiro episódio da segunda temporada. E é. Porque não há uma parte de Fleabag que passe por nós sem nos esbofetear ou acariciar a cara. E a mão que desfere o golpe é a de Phoebe Waller-Bridge.

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