A Ascenção de Skywalker e o Declínio de um Franchise

janeiro 15, 2020

Depois de Game Of Thrones, 2019 trouxe-nos o desfecho de mais uma saga. Quando reflecti sobre o desfecho série da HBO defendi que "qualquer conclusão seria amarga por se tratar de uma conclusão." e mantenho o que escrevi, mas caramba há amargo e há praticamente intragável.

Talvez os sinais estivessem lá e os tenha ignorado porque a carga emocional de ver uma saga que adoramos chegar ao fim é pesada e demora a processar. Ou talvez essa mesma carga me impediu de pensar em como exactamente seria este desfecho. A verdade é que me apanhou de surpresa o quão mau achei o último capítulo desta saga.

The Rise Of Skywalker transforma a nova trilogia numa narrativa desarticulada, pouco imaginativa e que parece confirmar os agoiros de que se trataram apenas de filmes para fazer dinheiro. Depois de algumas críticas a The Last Jedi - o segundo capítulo da trilogia - era preciso fazer as pazes com os fãs. Então, o terceiro capitulo da saga, tornou-se num exercício na arte de tentar agradar todos os membros de um público com opiniões e emoções divergentes.

A minha opinião sobre The Last Jedi é bastante pública. A forma como Rian Johnson desafia a audiência em vez de lhes dar exactamente aquilo de que estão à espera é a melhor abordagem que já vi a um franchise. Deram-lhe uma oportunidade enorme para contar uma história e ele escolheu questionar tudo aquilo que tinham pré-concebido sem nunca desrespeitar o passado.

O tema central do filme são os legados. A histórias que ficam e repetimos até se tornarem mais do que histórias. Todas as personagens enfrentam os seus legados e é nesse conflito e na sua resolução que reside o triunfo do filme. Johnson tenta ensinar-nos de que os legados podem apenas reflectir as partes boas, de que há lugar para fracassos e que há lugar na história para aqueles que não têm legado - entre muitas outras coisas. Por razões que desconheço e nunca procurei conhecer a fundo, alguns fãs detestaram tudo isto com uma paixão feroz e foi algures nessa altura que se decidiu que o terceiro capítulo seria uma tentativa de apaziguar essas pequenas mentes.

Quando que J.J. Abrams ia voltar para escrever e realizar o desfecho da saga senti que ele fecharia o ciclo e a saga com chave de ouro. Que os dois filmes - um que relança a saga e outro que a lança para território desconhecido e entusiasmante - iam ter direito a um desfecho merecido. Quando vi o material promocional e o nome The Rise of Skywalker sonhei com todas as possibilidades que poderia vir a assistir. Não me ocorreu nunca que as opções de Abrams e companhia fossem tão... pouco inspiradas.

The Last Jedi estabelecia Rey como alguém que conquistou o seu lugar nesta história e não alguém que pertencia de forma inata na mesma. Sem legado a satisfazer, Rey era exactamente o contrário de Kylo Ren/Ben Solo, o antagonista que carrega o fardo de legados e mitos no sangue. The Rise of Skywalker tinha uma dinâmica pré-estabelecida à espera de ser explorada e com Snoke, o suposto vilão dos primeiros dois capítulos, fora do caminho tinha espaço para o fazer.

Em vez disso, o filme passa muito pouco tempo a construir a surpresa que não surpreende ninguém porque é exactamente aquilo a que Star Wars nos habituou: Rey é neta de Palpatine e, como tal, ela só pertence a esta narrativa porque os seus antecessores faziam parte destas histórias do passado. Não foi algo que ela mereceu, era apenas algo inevitável.

Especulou-se muito sobre a família de Rey e era expectável que fosse parente de alguém familiar, como um Skywalker, ao dizer-nos que os seus pais eram "ninguém", Rian Johnson deu-lhe mérito, poder e deixou claro que todos podem possuir esse poder. A mensagem em The Rise of Skywalker colide contra esta e resume-se nisto: não são vocês, é a vossa família.

É importante discutir Palpatine. Para os mais distraídos: estamos a falar de uma personagem que, até à data, se encontrava morta. O grande vilão da trilogia original havia sido derrotado... ou era o que pensávamos. Os primeiros momentos do filme re-apresentam Palpatine e informam-nos que Snoke era apenas uma criação dele e que passara toda a sua vida a influenciar Ben Solo/Kylo Ren.

Apresentarem um novo velho vilão no culminar de uma narrativa é algo que não faz sentido. É suposto estarmos a fechar narrativas e não a abrir narrativas que estavam fechadas desde 1983. Não só não faz sentido no presente, como desvirtua toda a narrativa de The Return of the Jedi em que Luke Skywalker e Anakin Skywalker derrotam Palpatine. Se ele ainda está vivo, ninguém foi derrotado e o culminar do filme é apenas uma ilusão em que temos vindo a acreditar desde a primeira vez que vimos o filme.

Apaziguar os fãs e consequentemente assegurarmos-nos de que ainda estão dispostos a gastar dinheiro no nosso merchandising não são razões remotamente boas para dizimar narrativas. Para a Disney, contudo, isso parece não ser importante. Basta olharmos para Rose Tico, a personagem de Kelly Marie Tran. A actriz foi atacada na internet pelo seu papel de relevo em The Last Jedi o que  levou a que suspendesse as suas redes sociais e agora vê o seu tempo no ecrã e envolvimento na história ser reduzido drasticamente. E embora tenham tentado culpar os efeitos especiais, é claro para todos que foi uma consequência directa do backlash da internet. Os fãs não gostaram da personagem, a personagem deixa de ter relevo - mesmo se os fãs demonstrarem um comportamento nojento. 

Afastar uma personagem que o público tinha como familiar - porque a conheceu no último filme - e dar mais minutos a uma personagem que acabamos de conhecer e é claramente um dos hobbits é obviamente uma decisão deliberada. Culpar os efeitos especiais, o falecimento de Carrie Fisher - que ocorreu quando nem sequer havia um guião - ou até mesmo esconder-se atrás de George Lucas é outra decisão deliberada: a de tentar desculpabilizar-se da culpa imensa que têm.

O guião tem falhas praticamente imperdoáveis e ninguém o assume. Mas isto deixa de surpreender quando descobrimos que dos guionistas é o homem por trás de Batman vs. Superman e Liga de Justiça, dois filmes de um franchise gigante com falhas enormes a nível de narrativas, que me levam a questionar como e porquê é que empregaram este homem que agora está a esforçar-se por se desculpar.

Aceitar as falhas de The Rise of Skywalker é especialmente desafiante para mim porque sinto que falharam um dos vilões mais interessantes e ao fazê-lo falharam com um dos melhores actores da actualidade: Adam Driver. Defendi que Kylo Ren era talvez tão bom como Darth Vader e embora estivesse completamente preparada para assistir à sua redenção, a forma como foi tratada foi, parece incompleta e pouco merecida.

Kylo Ren matou Han Solo no primeiro filme, Luke Skywalker no segundo e tantos outros no entretanto. Kylo Ren matou o seu mestre e abdica da posição de poder que obtivera na consequência desse acto para perseguir Rey. Kylo Ren era o vilão deste filme. Até Palpatine aparecer. Até Palpatine se tornar responsável por cultivar a maldade em Kylo Ren. Da mesma forma que Palpatine torna a pertença de Rey nesta história em algo inato e não algo que mereceu, acaba por tornar Kylo Ren apenas numa marioneta - alguém cujas escolhas são apenas fruto de más influências. Porque é mais fácil perdoá-lo se aceitar-mos que também ele é uma vítima.

Seria interessante ver Ben Solo assumir poder numa tentativa de forjar um legado que só a ele pertence. Gradualmente, esse esforço provar-se-ia inútil e a sua redenção começaria. A realidade é bastante triste: ele reconstrói um capacete que só vai usar durante cerca de 5 minutos, parte em busca de Rey, continuamente esforçando para recrutá-la, confronta-a com a verdade sobre os seus pais, confronta-a com o seu sabre de luz - num duelo tão mal construído como o filme em si e que poderia dar mais um parágrafo - e depois de quase falecer, ser curado, ver o seu pai - olá, cameo do Harrison Ford que serve apenas para agradar aos fãs - e  atirar o seu sabre de luz ao mar.... Kylo Ren morre e Ben Solo volta à vida. E é isto. É tão definitivo que durante o resto do filme, Adam Driver não teve de decorar uma única palavra. E isto não é um exagero, é mesmo a ausência de falas a serem proferidas. Mas tudo está bem porque copiou movimentos de Harrison Ford?

E a cereja no topo do bolo é a sua morte. A este ponto qualquer vilão de Star Wars  reza para não haver nenhuma redenção no seu futuro. Palpatine tem a ideia certa, mantém-se mau e é ressuscitado para agradar a fãs descontentes e destruir uma das minhas mensagens preferidas do filme passado - nota-se que não estou pronta para esquecer os delitos cometidos?

Há ainda que discutir a forma como fazem uso do investimento emocional da audiência de forma tão casual. Chewbacca é morto e o impacto dessa morte é praticamente nulo para as personagens que convivem com ele e para nós - é rapidamente claro que o wookie está vivo. E depois C3PO cuja memória é apagada - o que significa morrer em linguagem droid - algo que aparentemente não incomoda ninguém e também não importa porque no fim isso será revertido. Em suma, para um evento ter a magnitude emocional que pretendem, convém darem a entender que teve magnitude e não foi algo casual. Caso contrário: será indiferente e a sua resolução será indiferente.

E esse tratamento estende-se para a forma como lidam com Leia. Tendo todas as possibilidades, os escritores decidiram incluí-la no filme e dar-nos uma despedida. E depois - perdoem o meu francês - lixam tudo. A sua última cena é ambígua: será que sabia que a sua morte era iminente ou estaria a tentar salvar o seu filho ou talvez estivesse distraí-lo para que Rey vencesse o duelo? Não é claro. E quando chega o momento de dizer adeus, é tudo tão breve que não tem o peso que deveria ter. Mais uma vez, The Last Jedi, o último filme que Carrie Fisher filmou antes de falecer, faz mais por Leia e pela memória de Carrie Fisher do que The Rise of Skywalker. Mas pelo menos, vimos a versão computorizada de Leia a treinar para ser Jedi e, no fundo, não é isso que todos os fãs querem?

Houve ainda tempo para um cameo do Mark Hamill e Billy Dee Williams regressa com o seu Lando e não é nada triunfal, mas serve para alegrar fãs. Poe e Hux são desperdiçados e maltratados e todos os sinónimos disso que encontrarem. Não há coragem para avançar com a narrativa que Oscar Isaac tanto desejava: Finn e Poe numa relação. John Boyega parece adotar o papel de Kit Harington na última season de Game of Thrones e passa a maior parte do tempo a chamar por Rey. Os Knights of Ren existem sem nenhuma particular razão de ser. E, para além de novos vilões, o último filme da saga revela que os Jedi podem curar pessoas, menciona um novo conceito - díade da Força - e deixa implícito que uma nova personagem pode ser também ela filha de outra personagem. Não explora esta nova informação e ninguém fica esclarecido naquele que é o filme para esclarecer assuntos porque não vai existir próximo - mas houve tempo para vermos a máscara inútil do Kylo Ren a ser reconstruída.

The Rise of Skywalker conseguiu causar uma maior divergência entre fãs que The Last Jedi. Uns gostam outros odeiam e os extremismos parecem-me exagerados. No fim do dia e, apesar deste artigo demasiado grande, é apenas um filme. É claro que, se olharmos para todo o cenário a conversa é outra.

Star Wars é apenas uma peça no monopólio da Disney. A quantidade de franchises que estão debaixo da sua asa são quase inúmeros a este ponto e todos sabemos que franchises acabam, de uma maneira ou outra, por ser os filmes de eleição da audiência de massas. O desfecho pouco satisfatório da história dos Skywalker parece ser indicativo de uma era em que agradar os fãs para garantir dinheiro no banco é mais importante que os desafiar com uma narrativa irreverente. A qualidade vai empobrecer e o que Martin Scorsese dizia sobre outro franchise - Marvel - poderá estar mais certeiro do que eu gostaria que estivesse - "Nada está em risco. Os filmes são feitos para satisfazer um conjunto específico de exigências e são desenhados como variações de um número finito de temas."

O tempo julgará o valor cultural de The Rise of Skywalker e o impacto dos franchises no cinemamas até lá... é continuar a dar o benefício da dúvida, vê-los e escrever artigos estupidamente grandes sobre o que achámos porque não conseguimos parar de pensar nisso. 

You Might Also Like

0 comentários

Popular Posts