Captain Marvel e a emancipação de Carol Danvers

março 19, 2019

Depois de dez anos e cerca de dezanove filmes depois, chega ao ecrã o primeiro filme da Marvel centrado numa super-heroína: Captain Marvel. Há três anos, anunciaram que Brie Larson seria Carol Danvers e posso dizer, com toda a segurança, que não há nada que me desiluda neste filme sem ser o facto de a Marvel ter demorado tanto tempo a trazer Carol Danvers ao grande ecrã.

Lembro-me do burburinho que se ouviu nas redes depois do primeiro trailer. Frases como "a Brie Larson precisa de um acting coach porque tem sempre a mesma cara" ou "a Captain Marvel parece que não se está a divertir devia sorrir mais" e ainda "as miúdas não podem ser super-heroínas" circulavam e faziam com que os meus olhos revirassem quase que involuntariamente. Continua a ser difícil aceitar coisas diferentes e, como tal, atacar o que não é habitual parece ser a resposta. Aconteceu quando perceberam que John Boyega seria um Stormtrooper, aconteceu quando Mad Max deu destaque a uma personagem feminina e vai continuar a acontecer até tudo isto se tornar algo normal. 

Captain Marvel responde da melhor maneira, simplesmente, oferecendo duas horas de bom cinema aos espectadores. Sequências de acção incríveis, boa dose de humor, uma narrativa com as suas reviravoltas, personagens incríveis (e bom acting) e uma banda sonora fantástica. E, embora, por vezes, num filme com tantas partes possa existir um desequilíbrio, não neste - o que não é surpresa, porque a Marvel já nos habituou a filmes incríveis.

Mas há algo que eleva este filme. Carol foi convencida de que as suas emoções são uma fraqueza e que o seu poder lhe foi concedido, estes argumentos são usados para chantagear e até certo ponto subjugá-la. A melhor versão de Carol Danvers emerge quando ela se apercebe que  as suas emoções não são uma fraqueza e de que não deve nada a ninguém. No fundo, a origem de Captain Marvel enquanto super-heroína não é tão importante como o momento em que esta aceita e assume quem é, o que sente e a sua independência. Mais que uma história de origem, Captain Marvel é uma história de emancipação.

O processo de emancipação ocorre gradualmente ao longo de toda a narrativa, mas quando culmina, Carol Danvers é consagrada como o ser mais poderoso da MCU. E só para ter a certeza que todos perceberam, a última grande sequência de ação parece ter sido desenhada como prova irrefutável disso. E a melhor parte? Ver Carol gritar como se se estivesse a divertir numa montanha-russa, enquanto destrói o inimigo, claramente, apreciando a total capacidade dos seus poderes.

Podia escrever sobre o quão bom é ver outro registo de Nick Fury e o quão refrescante é ver a sua amizade com Carol Danvers. Ou escrever sobre as saudades que sentia de ver Jude Law no grande ecrã - algo que já me tinha apercebido em Fantastic Beasts: The Crimes of Grindewald, mas que este filme reforçou. E o nada novato Phil CoulsonPodia elogiar Ben Mendelsohn e apontar para a referência que ele faz a Star Wars, que se torna mais engraçada porque é ele que a faz. Talvez referir Annete Bening porque ela é fantástica. Ou fantástica decisão de escolherem Gemma Chan para integrar o elenco, porque ela é incrível. Declarar que gosto da Tenente Sarilhos A.K.A. Monica Rambeau, que espero voltar a vê-la e estou grata por ela ter exemplos tão fantásticos do que uma mulher pode ser. Mas prefiro destacar Lashana Lynch e a sua Maria Rambeau.

Maria Rambeau é a relação mais antiga de Carol Danvers, é quem a recorda da sua identidade, a segura nos seus braços e protege a sua retaguarda. Maria Rambeau pode não ter os poderes da sua melhor amiga, mas tem a mesma força de vontade, o mesmo espírito rebelde e a mesma bondade. Maria Rambeau e Carol Danvers confiam uma na outra, desafiam-se e amam-se. Se estão há procura do romance deste filme, está aqui, esteve sempre aqui.

Este parágrafo serve só para agradecer pela existência do Goose. Como dona de dois gatos, estou também grata por me terem dado outra alternativa aos seus outro nomes oficiais. Flerken 1 e Flerken 2, são termos utilizados por mim desde que vi o filme. O mesmo é válido para Flerken e Outro Flerken.

E, por fim, Brie Larson não precisa, nem nunca precisou de um acting coach. Ela sorri quando a sua personagem tem de sorrir e está séria quando ela deve estar séria e sente todas as outras emoções em todos os momentos devidos. Se eu confiava em Captain Marvel antes de chegar ao grande ecrã, deve-se em grande parte a Brie Larson. Não poderiam ter escolhido alguém mais acertado para vestir este fato. Estamos a falar de alguém que se preparou fisicamente durante 9 meses, que estudou a sua personagem e a respeita.

Para além disso, Brie respeita também o papel que tem enquanto figura pública numa posição privilegiada e é uma ávida crítica da forma como a sua indústria retrata as mulheres e de como lhe falta representatividade. Isto refletiu-se até na press tour, Larson certificou-se que esta era inclusiva e não maioritariamente dominada por homens caucasianos. E sim, este ativismo foi impulsionador de um boicote. Mas repito, tudo o que é diferente é alvo de críticas. Ela não odeia homens, apenas quer utilizar a sua posição para ajudar outros a conquistarem oportunidades que geralmente lhes são negadas.

Mas guardei a grande questão para o fim. "Mas se já existe a Wonder Woman, porque é que querem fazer parecer que a Captain Marvel é inovadora?" - pausa para respirar fundo - porque é. Porque  não há só uma forma de ser mulher. Porque todos merecemos ter alguém neste universos para quem apontar e dizer "ele/ela é como eu". Porque há espaço para isto. Se estas empresas estão dedicadas em construir universos, devem também pensar em representar a diversidade que existe nas suas vastas audiências e devem ser aplaudidas numa altura em que ainda se fazem perguntas tão idiotas.

Agora que ambos os filmes conquistaram as audiências e são sucesso de bilheteiras, todos os estúdios (não só a Marvel e a DC) se apercebam que há histórias centradas em protagonistas femininas à espera de ser contadas e que os espectadores estão mais que dispostos a vê-las, estão prontos para elas.

Num outro universo, Diana Prince e Carol Danvers estão a abraçar-se porque as suas histórias estão, finalmente, a ter o tempo de antena e respeito que merecem. And they don't need to prove anything to you.

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