A importância das tréguas de Taylor Swift e Katy Perry

julho 05, 2019


Ok, eu percebo como este título pode parecer redutor e apelar a um público específico. Mas - olhando directamente para vocês que não querem saber de popstars e dramas e afins - preciso que confiem em mim: isto é importante.

Algum contexto é sempre necessário. Três dançarinos abandonaram a tour de Taylor Swift e juntaram-se a Katy Perry, com quem já tinham trabalhado no passado. Swift fez o que Swift faz melhor: escreveu uma música. Mais tarde, numa entrevista admitiu que seria sobre outra artista que teria tentado sabotar uma tour. Katy respondeu com um tweet.  Houve todo um episódio que envolveu Nicki Minaj e levou Katy a publicar um tweet em que acusava Taylor de capitalizar com o ataque a outra mulher. A certa altura Calvin Harris envolveu-se e acusou a recém ex-namorada de tentar enterrar Katy Perry. Esta, eventualmente, lança  Swish Swish e surge toda a especulação de que é sobre Taylor. Perry faz o Carpool Karaoke com James Corden e diz algo como "ela começou e tem de acabar". Ainda se especula que Taylor Swift faz referência a Katy Perry no seu vídeo cheio de referências Look What You Made Me Do

E é então que, na noite da primeira atuação da Reputation Tour... Katy envia um ramo de oliveira a Taylor. Taylor, eventualmente, envia-lhe bolachas e incluí a agora amiga no vídeo do seu mais recente single   You Need To Calm Down

Uma vestida de batatas fritas - Taylor - parece deslocada no meio de uma luta de comida... até que outra vestida de hambúrguer - Katy -  surge. As duas agarram-se e oscilam em jeito de dança e as batatas fritas abraçam o hambúrguer. Paz no reino do pop. Finalmente. E não deixa de ser curioso que este conflito termine assim. Porque, essencialmente, ambas as artistas são comida no meio de uma luta de... comida.  Embora seja inegável que Swift e Perry ajudaram a fomentar a situação, não posso deixar de constatar que toda a indústria da música estava contra elas desde o primeiro momento do conflito.

A indústria da música é dominada por homens. Quero apresentar factos para que não me acusem de o dizer apenas porque me identifico enquanto mulher. Segundo um estudo realizado pela USC Annenberg Inclusion Initiative, as mulheres representam 21.7% dos artistas, 12,3% dos compositores e 2,1% dos produtores da tabela da Billboard Hot 100 entre 2012 e 2018 . Depois de inquirir 75 compositoras e produtoras do género feminino, este estudo concluiu que a percepção das mulheres nesta indústria é altamente estereotipada, sensualizada e estas são vistas como não tendo habilidade/talento.

Assumo que todos vós estejam cientes de chegou a época dos festivais e muitos irão usufruir da mesma. Mas quantos já repararam que não há mulheres como cabeças de cartaz? Em Glastonbury, o segundo maior festival do mundo a céu aberto, oito em cada dez cabeças de cartaz são homens e só duas mulheres a solo foram cabeça de cartaz - Beyoncé e Adele, em 2011 e 2016, respetivamente.  No Coachella, um dos mais mediáticos festivais, Ariana Grande foi apenas a quarta mulher a pisar o palco enquanto cabeça de cartaz - o festival tem duas décadas. E não precisamos de ir longe, depois de ver todos os cartazes do Optimus Nos Alive, observamos que desde 2007, tirando um brilhante momento em que os Arcade Fire - e Régine Chassagne - tiveram direito a letras grandes no cartaz, todos os cabeças de cartaz são homens ou bandas compostas por homens. Este ano não é excepção.

Um artigo da Vox   refere ainda situações como a de Camilla Cabello que mesmo com um álbum e single em número um das tabelas aparece apenas na quinta linha do cartaz do Lollapalooza e a de St. Vincent, uma artista com cinco álbuns lançados desde 2007, que aparece depois de artistas do género masculino cujos álbuns de estreia tinham acabado de sair. E sim, amigos, a linha em que um nome aparece no cartaz é importante. Em suma, quanto maior o nome no cartaz, maior a importância tem na indústria. 


E isto influencia todo o conflito Taylor Swift/Katy Perry. A indústria não está interessada na existência  mais do que uma mulher bem sucedida. É claro que há benefícios em ter dois colossos a escreverem músicas que podem ou não ser sobre outro. Nós enquanto público, consumimos esse conteúdo e ajudamos a capitalizar o conflito. Por outro lado, o público-alvo de ambas as cantoras é semelhante e ao criar o conflito e explorá-lo, forçamos a que este público-alvo, que em circunstâncias normais seria perfeitamente capaz de encaixar ambas nas suas playlists, escolha um lado. És uma Swiftie ou uma Katy Cat? Ao polarizar este público, acabamos por garantir que por muito amada que seja haverá sempre aqueles que a desprezam e, como tal, não contribuem para o sucesso de uma artista com mérito.

No caso de Taylor Swift e Katy Perry não podemos dizer que as mesmas foram afectadas de forma muito nefasta pelo conflito. De facto, é possível que, a nível profissional, tenham beneficiado. Mas há outros campos em que tal não se verifica. Nomeadamente, o rap. Parece que o sucesso mainstream está disponível para uma rapper de cada vez. E embora o sucesso mainstream possa ser desvalorizado por muitos, pois não é sinónimo de qualidade, não deixa de ser importante pois ajuda a criar oportunidades, algo que é necessário nesta indústria.

Os conflitos entre rappers são comuns e quase intrínsecos, contudo, no caso de artistas femininas cujas oportunidades são limitadas e o sucesso parece estar destinado apenas para uma, não deixa de ser algo preocupante. Barbies ou Bardigang? Quem escolhem? De que lado estão? Quem reina apesar de haver espaço para ambas? Escolham e fechem a porta do reino.

A indústria sabe que o conflito é rentável e ignora o impacto do mesmo nas escassas oportunidades que há para artistas que se identificam como mulheres. Estas são percepcionadas de forma negativa (estereotipadas, sensualizadas e tidas como pouco talentosas). Estas parecem ter de trabalhar o dobro para chegarem a cabeça de cartaz ou, simplesmente, para terem um tamanho de letra maior no cartaz. E parece inconcebível que enquanto público possamos usufruir de duas artistas bem sucedidas em simultâneo - seja no Spotify ou num festival.

As tréguas de Taylor Swift e Katy Perry são importantes pois mostram que o conflito não é de todo necessário na narrativa das artistas femininas. Ambas lançaram singles, ambas têm sucesso e nenhuma precisa de atacar a outra para garantir mais vendas. E se duas das maiores artistas articulam essa mensagem, é mais possível que esta se generalize.

Haverá sempre conflito, até porque o público adora e, como tal, a indústria providencia desprezando as consequências. Se pelo menos houvesse tantas oportunidades quanto há drama, talvez a situação não fosse tão grave. Não podendo confiar na indústria, as artistas terão de se apoiar mutuamente. Abrir caminho e criar espaço para outras artistas. Apoiar os esforços de cada uma e lutar por uma indústria mais equilibrada. Uma indústria que tenha mais oportunidades do que drama - ou em que a diferença entre oportunidades/drama seja menos drástica do que é atualmente. E, provavelmente, terão de trabalhar mil vezes mais que um artista que se identifica como homem.

É importante que a indústria mude. É importante que percepcione as artistas de forma diferente e positiva.  É importante aumentar o número de artistas a encabeçar festivais e a ganhar o que merecem por isso. É importante que se criem condições para que as mesmas alcancem o sucesso sem pisar outras artistas.

A indústria da música é apenas mais uma indústria em que as mulheres têm de lutar o dobro. Mas como se trata de uma indústria mediática, é um lugar perfeito para começar a generalizar a mensagem de que independentemente do género o número de oportunidades não deveria ser tão díspar.

Katy Perry e Taylor Swift têm os olhos do mundo em cima e escolheram dar um passo no caminho certo. Isto despoleta conversas e dá um exemplo.  E é por isso que as suas tréguas são importantes.

E, claro que um mundo em que um hambúrguer e batatas fritas se abraçam no meio de uma luta de comida é utópico, mas temos de começar por algum lado. Mesmo se for com duas popstars que não vos dizem nada.

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