Stranger Review

agosto 12, 2019

Em 2017, o elenco de Stranger Things subiu ao palco dos SAG Awards para aceitar o prémio de melhor elenco numa série de drama. Só havia uma temporada. Os miúdos eram ainda mais pequenos. E havia uma demanda por mais. David Harbour fez um discurso incrível e Winona Ryder ficou confusa.

Alguns anos e umas temporadas depois e o discurso ainda me persegue. Especialmente, porque Harbour fez algumas promessas.

Now, as we act in the continuing narrative of Stranger Things, we 1983 Midwesterners will repel bullies. We will shelter freaks and outcasts, those who have no homes. We will get past the lies. We will hunt monsters.

And when we are at a loss amid the hypocrisy and the casual violence of certain individuals and institutions, we will, per Chief Jim Hopper, punch some people in the face when they seek to destroy the disenfranchised and the marginalized, and we will do it all with soul, with heart, and with joy. We thank you for this responsibility. Thank you. (x)

Até que ponto é legítimo que um actor faça estas promessas? Não sei. Mas para os propósitos deste post vamos assumir que ele consultou os irmãos Duffer antes de as fazer.

Vamos afastar os bullies. Billy Hargrove é sem dúvida o bully e isso já tinha sido estabelecido na temporada dois. Desta vez, só tiveram de o cimentar. E não havia melhor forma de o fazer do que fazer com que ele fosse possuído pelo monstro. Esse monstro não chega, temos o Terminator russo - porque qualquer organização shady precisa de um senhor fisicamente enorme que simbolize o seu poder. Pelo menos o Billy possuído e sem estar possuído tem mais substância que o segundo. Ainda assim... ambos são afastados.

Vamos proteger freaks e outcasts e aqueles que não têm casa. A narrative de Eleven é o melhor testamento de que esta promessa está a ser cumprida. Não há ninguém tão invulgar como ela em Hawkins e, ainda assim, tem um lar. Tem até uma porta que deve ficar 3 inches (7,62cm) aberta. E ficou, de facto, aberta para mais narrativas em que personagens outcasts ganham um lugar. Estou a olhar directamente para a narrativa da Robin. A sociedade daquela era não aceita a orientação sexual dela tão graciosamente como Steve. Se irão explorar isso? O tempo dirá. Mas gostava que o abordassem.

Vamos ultrapassar as mentiras.  Esta custa-me. Porque toda a cidade de Hawkins vive na ignorância e parece haver uma redoma de mentiras entre eles e o que realmente se passa na cidade. Podemos argumentar que o grupo principal, ultrapassa estas mentiras. Ainda assim, para mim, a cidade é, mais que um cenário, uma personagem integral da história. Nada seria o mesmo se se passasse noutro local. As pessoas seriam diferentes, as aventuras não seriam tão peculiares e as consequências teriam outra escala. Não quero de todo que os habitantes de Hawkins, subitamente, deixem de ser ignorantes para o que se passa... Contudo, gostava que os monstros e os russos fossem parte de um mito urbano que não parece existir e, numa pequena cidade, existiria de certeza.

Vamos caçar monstros. Não é preciso grande análise, para saber que os monstros estão lá e são caçados. Todas as temporadas - isso incluí a terceira - culminam num confronto com um qualquer monstro do Upside Down. Spoilers: os heróis ganham. Nada errado com isso, especialmente porque se trata de uma série inspirada por um tempo áureo do cinema/televisão em que a dicotomia bom/mau era acentuada e a vitória do bem era incontestável. A número 3 deu-nos um final ambíguo: o Hopper, presumidamente, faleceu e Joyce, companhia e Eleven perderam a casa que em tempos abrigou luzes de Natal e desenhos de monstros que afinal eram mapas. Ainda assim: o monstro foi caçado. Vitória vitória, acabou-se a história.... Excepto que não porque há uma cena pós-créditos, o Demogorgon está vivo, em cativeiro na Rússia e há um americano e não sei em que acreditar.

Quando estamos "perdidos" no meio da hipocrisia e da violência casual de certos indivíduos e instituições, vamos, como Chief Hopper, dar murros na cara das pessoas quando procuram destruir aqueles que foram privados dos seus direitos e os marginalizados. Sinto que precisamos todos de uma pausa depois desta frase e agora percebo o porquê da cara da Winona - isto é muito para processar. Arrisco-me a dizer que não há nada tão consistente em Stranger Things é a forma como as suas personagens não se conformam. Eles ditam as suas próprias regras, seja isso problemático ou não. A terceira temporada deixou que Hopper fizesse literalmente o que Harbour prometeu: dar murros. Quando confrontado com instituições corruptas... Hopper não se conformou. Podia dar mais exemplos - a cuspidela desafiadora da Robin; Joyce a gritar ao telefone; Nancy a perseguir histórias depois de lhe terem dito que não o deveria fazer - mas pareceu-me adequado usar só o Hopper porque é o Harbour a cumprir as suas promessas.

Faremos tudo com alma, coração e alegria. Numa época em que a nostalgia vende - shoutout aos remakes da Disney - Stranger Things continua a ser pioneira na forma como a usa para criar algo novo. É uma autêntica carta de amor a uma década passada e a tudo o que nos deu, mas não é uma cópia. Não é só uma tentativa de capitalizar o nosso desejo de reviver algo de épocas que já passaram por nós, tem alma, coração e alegria. Estes residem na relação de Hopper com Eleven, na narrativa de Steve, na tristeza de Will porque se sente distante dos seus amigos, na forma como Joyce repara em algo tão pequeno como ímanes que perdem o magnetismo.

Contudo, tenho algum receio de que cada vez mais a série se conforme a dar-nos o que esperamos dela e estagne. O meu desejo para Stranger Things é que continue a cumprir todas as promessas, mas - e é um "mas" muito importante - eleve a fasquia e se desafie cada vez mais aquilo a que se propôs. E o melhor é fazê-lo antes que as audiências se habituem - habituem ao ponto de se manifestarem violentamente à mínima mudança e habituem ao ponto de perderem o investimento que fizeram na série até agora. É cruzar os dedos e esperar pela próxima temporada  - ou pelo próximo discurso do David Harbour.


Para os que querem mais Stranger Reviews, fica aqui a minha review da season dois.

PS:. Acho talvez algo necessário discutir o comportamento de Hopper nesta temporada. As opiniões estão entre aqueles que acham piada e aqueles que acham problemático. Vejo argumentos para os dois lados desta discussão. E talvez por isso não tenha abordado o tema, talvez mais tarde...

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