Julgar Norman Fucking Rockwell pela capa

setembro 10, 2019

É ingénuo dizer que todas as capas informam a música ou são informadas por ela. Vivemos na era dos singles e do consumo rápido e isso pode significar que ninguém pensa na componente visual que acompanha o som. Mas há ainda quem se preocupe com ambas as coisas. Lana del Rey é uma dessas pessoas e é evidente que a sua narrativa estende-se para lá do que ouvimos.

Não é segredo que as capas dos seus álbuns estão interligadas e contam uma história. Apresentou-se ao público, nos subúrbios, à frente de um carro com uma camisa branca e um olhar estóico. De seguida, perdeu a cor e abriu a porta do carro, o olhar permanecia inalterado. Quando o terceiro álbum chegou, Lana estava dentro do carro e, protegida pelo seu chapéu e pelos óculos escuros grandes, recusou-se pela primeira vez a olhar para nós. E é então que surge o quarto álbum. Com flores no cabelo e um sorriso, Lana pousa em frente de um carro que evoca o da primeira capa. Aliás, tudo evoca o primeiro álbum, mas tudo é mais feliz. Parecia o culminar de uma narrativa. Lana tinha encontrado o seu sorriso e uma paz que nunca antes tinha tido. Então onde entra Norman Fucking Rockwell?

Lana segura a cintura de um homem com um dos braços e estende o outro na nossa direção. Pela primeira vez, as suas roupas não são brancas. O céu é azul e uma pintura. Não há carro desta vez. Estamos no mar e a cidade está a arder. É um novo capítulo.

Alguns disclaimers: não sou uma grande fã da Lana del Rey. Depois de Ultraviolence , apenas ouvi alguns dos singles que ela lançou. Isto significa que há um período de tempo em que a arte dela não era apelativa para mim. Norman Fucking Rockwell mudou o rumo da minha relação com Lana.

O quinto álbum de Lana é o álbum mais honesto dela. A voz e as letras dela assumem posição de destaque. A tristeza continua a estar lá, mas sente-se uma paz e uma maturidade que nunca antes de sentiu. Quase como se a teatralidade de antes se tivesse evaporado e tudo o que ficou foi apenas a Lana.

Há momentos de vulnerabilidade e momentos em que Lana está mais segura de si do que alguma vez mostrou estar. Há uma história de amor que consegue ser o melhor que ela já teve e o mais complexo dos casos amorosos ao mesmo tempo. Continua a haver nostalgia por uma época que ela não viveu, pela cidade que ela abandonou. Há um retrato de uma cidade que Lana ama.

Norman Rockwell era um pintor americano. Dedicava-se à pintura de cenas do quotidiano e retratos e era conhecido por ser meticuloso. Lana fez um álbum à sua imagem: tudo o que ela faz é feito de forma a compor o seu universo. Tudo tem o seu espaço e faz sentido. Tudo se une para compor o mais genuíno dos álbuns que esta artista já fez.

Ao ler a página da Wikipedia dedicada a Norman Rockwell, achei particularmente interessante o que dizem sobre a evolução do trabalho do artista:

"(...) é possível notar o desenvolvimento de sua obra, no início eram crianças no sentido mais inocente, já quando ele se torna adulto sempre faz uma contraposição, como um adulto olhando para seu passado ou o contraste da infância, juventude com a fase adulta." (x)

E não há melhor forma de descrever a forma como a obra de Del Rey evoluiu neste álbum. Sem desrespeitar o que fez no seu passado e fazendo uso disso, todo um novo retrato é construído. A capa do álbum destoa das restantes, porque o próprio álbum o faz. É reinvigorate. Dei por mim agarrada a este álbum e desde que se saiu que ouço pelo menos uma música do álbum diariamente - ou escolho uma e quando dou por mim estou a ouvir o álbum pela quarta vez.

Há também uma nota sobre como um incêndio no estúdio do artista foi o mote para alguns dos seus quadros. Até nisto se encontra paralelismo com Lana. Ela que sempre cantou sobre os incêndios românticos de uma paixão e incêndios violentos do fim de uma relação/de uma relação tóxica, cujo lar - California - foi assombrado por incêndios e cuja capa do álbum retrata a costa em chamas.O simbolismo que está embrenhado no quinto álbum de Del Rey podia ser tópico de teses e artigos intermináveis.

Norman Fucking Rockwell é território novo para Lana, mas não é groundbreaking a nível global. Não é uma reinvenção musical ou um marco na indústria da música. Ainda assim o Pitchfork deu-lhe uma pontuação bastante elevada. Sinto que é uma avaliação inflacionada, mas que se trata de um reconhecimento da reinvenção da artista. É também um prémio pela sua sinceridade, o que me leva a questionar porque é que outros artistas cofFlorence&TheMachinecof  não receberam o mesmo tratamento caloroso. Será que a honestidade só tem valor quando é algo que o artista nunca tentou no passado? Another topic, another time.

Numa altura em que se faz música descartável, mais artistas que pensam e executam álbuns com narrativas que são extrapoladas para outros campos - capas e videoclips, talvez merch- são bem-vindos. E a Lana Fucking Del Rey conseguiu fazê-lo de uma forma tão exímia que quase parece simples.

Espero que esta vaga de honestidade não seja um one off e que Lana arrange outras maneiras de partilhar um lado mais genuíno connosco. E espero, acima de tudo, que continue a pensar na sua obra de forma minuciosa e a atribuir significado a tudo o que faz - outros posts poderiam ser escritos sobre como o videoclip de Summertime mostra uma Lana gigante e despreocupada a ajudar uma pequena Lana e pequena que se parece muito com Lizzy Grant a.k.a. Lana pré-del Rey. A minha relação com a Lana está numa boa fase e que quero que se prolongue, por isso, anseio que este seja o primeiro capítulo de uma nova era para Lana e que o próximo eleve ainda mais a sua obra.

Não julguem todos os álbuns pelas capas, apenas aqueles que merecem: como Norman Fucking Rockwell.

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